“Foi assim que ele matou aquela-com-quem-ele-brincava-sempre”: uma análise da transgressão moral da personagem feminina em uma narrativa Paiter Suruí

Luana Jessica Gomes Pagung

Resumo


O Brasil possui uma grande diversidade de povos indígenas, dentre eles se encontra a população Paiter Suruí, uma etnia que se localiza em uma região fronteiriça ao norte do município de Cacoal (estado de Rondônia) até o município de Aripuanã (estado de Mato Grosso). A este povo pertence a narrativa de expressão oral “Um Namorado-Anta”, que compõe o corpus da análise. O presente artigo tem por objetivo analisar como a transgressão moral da personagem feminina se estrutura e (re)produz saberes acerca das relações de gênero. A narrativa em questão está contida no livro Vozes da Origem, organizado e traduzido pela antropóloga Betty Mindlin. O livro é uma seleção de narrativas provenientes da tradição oral do povo Paiter Suruí contadas em sua língua de origem, Tupi-Mondé, gravadas, transcritas e traduzidas para o português por Betty Mindlin em colaboração com jovens Suruí falantes do português. Para este estudo, a análise foi amparada nas contribuições teóricas da crítica psicanalítica em combinação com a crítica feminista. O percorrer da análise sinaliza que a personagem feminina é representada de forma transgressora como elemento fundamental para compor a moral da história, esse elemento é usado para transmitir a mensagem-chave dos valores e a punição a quem os transgride, reservando à mulher um prenúncio da atribuição de seu gênero. Dessa maneira, pode-se observar a forma como as dimensões sociais são apropriadas pelo fazer literário, sendo a personagem feminina presente na narrativa uma representação da mulher na sociedade Paiter Suruí, tanto quanto a narrativa se mostra uma representação da realidade cultural indígena com a propagação de seus valores.

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