Entre a sátira da metafísica e as portas do mistério: Machado de Assis e a Filosofia do Inconsciente de Eduard von Hartmann

Janaina Tatim

Resumo


Neste artigo, desenvolvo um ângulo para localizar e qualificar a relação de Machado de Assis com a Filosofia do Inconsciente de Eduard von Hartmann. Primeiro, investigo essa relação pelo ângulo da sátira do Humanitismo, no que o pensamento de Eduard von Hartmann se encaixa nas características das novas teorias que serviram à paródia de Machado, precisamente devido a sua pretensão de conciliar cientificidade e metafísica. Contudo, levando em conta o fato de que na primeira versão do romance Quincas Borba Machado praticamente deixou de lado a filosofia do Humanitismo, outro ângulo de sua relação com o pensamento do filósofo alemão apareceu: na primeira versão do Quincas Borba, ele colou em cena um conceito inédito de inconsciente. A relação de Machado com o pensamento de Hartmann apresenta uma ambiguidade fundamental. A melhor forma de compreendê-la parece ser nessa via ambígua produzida pela contradição de um sistema filosófico que encena sua própria arbitrariedade e seu potencial de objeto risível, mas que força a razão a mirar, por meio da metafísica, a concepção do inconsciente como uma lógica outra, como um estrangeiro habitando no interior da morada da razão.

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